Congresso Mundial de Sementes encerra em Lisboa com uma participação recorde e a eleição da primeira mulher presidente da ISF
Lisboa, Portugal — O Congresso Mundial de Sementes 2026, o maior encontro anual do setor das sementes em todo o mundo, terminou em Lisboa, com uma participação recorde de mais de 900 empresas e organizações diferentes, e a eleição de Lorena Basso, da Argentina, como a primeira mulher presidente da ISF nos seus 102 anos de história.
Organizado pela Federação Internacional de Sementes (ISF), o Congresso reuniu mais de 1.800 delegados e convidados de 78 países. Sob o tema “Ações Conjuntas, Futuros Resilientes”, o evento reuniu empresas de sementes, associações nacionais e regionais do setor, decisores políticos, investigadores, inovadores, parceiros da cadeia de valor e líderes da próxima geração, numa altura em que os impactos climáticos, a instabilidade geopolítica e as interrupções comerciais continuam a exercer pressão sobre os sistemas agroalimentares globais.
“O Congresso Mundial de Sementes em Lisboa demonstrou que, mesmo em tempos de constante mudança e volatilidade, os nossos associados, que representam 96% do comércio global de sementes, estão empenhados em continuar a trabalhar em conjunto — entre regiões, culturas, modelos de negócio e gerações — para garantir que os agricultores de todo o mundo têm acesso a sementes de qualidade, apoiando a segurança alimentar e nutricional e ajudando a construir sistemas alimentares resilientes para o futuro”, afirmou Michael Keller, Secretário-Geral da ISF.
O Congresso foi organizado em colaboração com a ANSEME, a Associação Nacional de Produtores e Comerciantes de Sementes, cujos membros representam perto de 90% do mercado português de sementes. O setor das sementes de Portugal, com fortes ligações à Europa e ao mundo lusófono, proporcionou um cenário adequado para discussões sobre o acesso dos agricultores, a adaptação climática, a inovação e a colaboração global.
Cerimónia de Abertura
O Presidente da Anseme, Pedro Pereira Dias, abriu a Cerimónia sublinhando a importância deste encontro pelo facto de a produção alimentar começar com uma semente, o que lhe confere um papel estratégico tanto a nível europeu como global, especialmente face aos desafios atuais. Referiu também que, atualmente, a agricultura europeia atravessa uma fase de transição complexa, marcada por uma crescente exigência dos consumidores, que exigem maior qualidade, segurança alimentar e responsabilidade ambiental, o que coloca uma pressão significativa sobre os agricultores para produzirem mais e melhor, ao mesmo tempo que minimizam o impacto ambiental da sua atividade.
“Assim, o setor das sementes assume um papel ainda mais crucial neste contexto, sendo fundamental para responder a estas exigências e desafios.” Referiu o Presidente da Anseme.
“A resiliência que procuramos construir não é apenas climática ou económica, é também social e alimentar. Significa garantir que, num mundo em crescimento e em mudança, continuamos capazes de produzir alimentos suficientes, acessíveis e sustentáveis. Portugal, tal como outros países europeus, enfrenta desafios próprios: escassez de água, envelhecimento da população agrícola e necessidade de modernização tecnológica. Mas também tem mostrado capacidade de adaptação, investimento em inovação e valorização das culturas mediterrânicas.”
Pedro Pereira Dias destacou a relevância deste evento como uma oportunidade única para partilha de conhecimento, identificação de soluções comuns, fortalecer parcerias internacionais e reforçar o papel estratégico do setor das sementes no futuro da agricultura mundial.
A Cerimónia de Abertura do Congresso de Lisboa, foi encerrada com a intervenção do Ministro da Agricultura e Mar português, José Manuel Fernandes, que no seu discurso, referiu que atravessamos um período de incertezas marcado pela instabilidade geopolítica, pelas alterações climáticas, pela pressão sobre os recursos naturais e pela crescente procura global de alimentos.
“Neste contexto, a agricultura enfrenta um dos maiores desafios do nosso tempo: produzir mais alimentos, com menos recursos, garantindo simultaneamente a sustentabilidade, a resiliência e a segurança alimentar.
E há um elemento estratégico no cerne deste desafio: as sementes.
O setor do melhoramento vegetal e das sementes desempenha um papel decisivo no futuro da agricultura global. Novas variedades vegetais são essenciais para aumentar a produtividade, melhorar a resistência a pragas e doenças, adaptar as culturas às alterações climáticas e garantir uma utilização mais eficiente da água e dos fatores de produção. Ao mesmo tempo, os sistemas de sementes certificadas garantem qualidade, rastreabilidade, segurança fitossanitária e fiabilidade, tanto para os agricultores como para os consumidores.”
“Ações Conjuntas, Futuros Resilientes”
O Ministro referiu também que o tema do Congresso de Lisboa, não poderia ser mais oportuno, referindo que atualmente, existem mais de 70 000 variedades das principais culturas agrícolas, com 4000 novas variedades a surgiram a cada ano no mercado internacional. Em simultâneo, mais de 8,8 milhões de toneladas de sementes agrícolas são produzidas e certificadas.
“Estes números demonstram a extraordinária relevância científica, tecnológica e económica deste setor. Mas também demonstram algo igualmente importante: nenhum país pode enfrentar os desafios agrícolas sozinho. É por isso que a cooperação internacional é essencial.”
Referiu que a crescente colaboração entre organizações internacionais através da Parceria Mundial para as Sementes, constitui um exemplo de como a ação conjunta pode fortalecer sistemas agrícolas sustentáveis em todo o mundo, estando Portugal a contribuir ativamente para este esforço através da participação das nossas autoridades nacionais nos quadros da OCDE, da UPOV e da ISTA.
Relativamente ao progresso tecnológico aplicado ao melhoramento vegetal, verificado nos últimos anos, o Ministro da Agricultura salientou a importância de inovações como a Novas Técnicas Genómicas por ajudarem a desenvolver culturas mais resilientes, mais resistentes às doenças e mais bem-adaptadas às necessidades nutricionais de uma população em crescimento.
“Apoiamos uma regulamentação equilibrada e baseada na ciência que garanta a segurança e, ao mesmo tempo, promova a inovação e a competitividade. Estamos confiantes de que a União Europeia concluirá em breve o processo legislativo neste domínio, permitindo que os melhoradores e as empresas de sementes europeias beneficiem plenamente destas tecnologias, em apoio a uma agricultura europeia mais forte e mais sustentável.”
O Banco Português de Germoplasma Vegetal, integrado no Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária — INIAV foi referido pelo Ministro como uma reserva estratégica para o futuro da agricultura.
“…não devemos nunca esquecer a importância de preservar os recursos genéticos vegetais. A biodiversidade não é apenas parte do nosso património natural — é também uma reserva estratégica para o futuro da agricultura. Em Portugal, esta missão é levada a cabo pelo Banco Português de Germoplasma Vegetal.”
Destacou também o papel do Centro de Inovação do INIAV em Elvas, um centro estratégico para a investigação agrícola aplicada e o desenvolvimento de sementes em Portugal.
“O INIAV lidera programas de melhoramento de cereais, leguminosas, pastagens e culturas forrageiras adaptadas às condições mediterrânicas e aos desafios das alterações climáticas.”
José Manuel Fernandes terminou o seu discurso salientando que o futuro da agricultura dependerá da capacidade de inovar, cooperar e investir no conhecimento.
“As sementes são muito mais do que um insumo agrícola. São o ponto de partida da segurança alimentar. São a base de sistemas agrícolas resilientes.
São uma ponte entre a ciência, a sustentabilidade e o desenvolvimento económico.”
Um marco histórico de liderança para a ISF
Durante a Assembleia Geral da ISF, Lorena Basso foi eleita Presidente da Federação Internacional de Sementes, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo. Basso, Presidente da Basso Semillas, uma empresa familiar de sementes na Argentina, conta com mais de duas décadas de experiência no setor das sementes e tem participado ativamente no trabalho estratégico da ISF como membro do Conselho de Administração.
No seu discurso aos membros, Basso reconheceu a importância do momento não só para si, mas para as mulheres de todo o sector das sementes e para a América Latina. Homenageou as mulheres que trabalham “no terreno, em laboratórios, em empresas, em associações, em cargos de liderança e, muitas vezes, nos bastidores”, e destacou a importância de construir espaços que abram portas à próxima geração.
“Ser a primeira mulher a servir como Presidente da ISF significa muito para mim”, disse Basso. “E partilhar este momento com uma vice-presidente mulher torna-o ainda mais especial”, disse Basso, referindo-se à eleição de Ellen Sparry, Diretora Geral da C&M Seeds, como vice-presidente, abrindo caminho para que esta assuma a presidência após Basso, em 2028.
Refletindo sobre a longa história da sua família no setor das sementes, incluindo o seu pai e avô, Basso descreveu o seu legado como sendo de “trabalho, respeito, compromisso, honestidade e amor pelas sementes”. Olhando para o futuro, ela pediu à ISF que se mantivesse focada não só na eficiência e na ação, mas também no seu propósito.
“Estamos aqui porque acreditamos que as sementes são importantes”, disse Basso. “Estamos aqui porque sabemos que o nosso trabalho tem um impacto que vai para além de nós próprios: nos agricultores, nos sistemas alimentares, na inovação, na resiliência climática e nas gerações futuras.”
Dos compromissos à ação prática
O Congresso de Lisboa assistiu ainda ao lançamento do novo documento de orientação prática da ISF, “Um Guia Prático para a Produção de Sementes: Navegando pelos Direitos Sociais e Práticas Éticas no Sector das Sementes.”
Este documento foi concebido para ajudar as empresas de sementes, fornecedores, produtores e associações a fortalecer as práticas laborais responsáveis em toda a cadeia de valor das sementes.
Ao longo dos três dias do Congresso, oradores em representação de organizações internacionais como o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a CIPV | Convenção Internacional para a Proteção dos Vegetais, bem como representantes da indústria, enfatizaram a importância de construir sistemas de sementes globais e locais inclusivos e resilientes.
O desenvolvimento e a distribuição de uma variedade de semente comercial envolvem frequentemente melhoramento genético, testes, produção, garantia de qualidade e distribuição em diversos países, tornando um comércio de sementes aberto, previsível e baseado na ciência essencial para o acesso dos agricultores e para a segurança alimentar global.
As sessões realçaram também a importância da coerência regulamentar para a inovação no melhoramento de plantas, incluindo as novas técnicas genómicas na Europa e noutros continentes, e a necessidade de políticas que permitam que a inovação chegue aos agricultores sem barreiras desnecessárias e sem fundamento científico.
As discussões sobre os recursos genéticos vegetais sublinharam a necessidade de uma colaboração contínua em torno da conservação, do acesso e da partilha de benefícios, reconhecendo que a diversidade genética continua a ser a base do melhoramento de plantas, da biodiversidade, da adaptação climática e da segurança alimentar a longo prazo. O Congresso fez ainda um apelo claro à ação para o investimento sustentado em bancos de germoplasma e para uma colaboração público privada mais forte, com o objetivo de conservar, caracterizar e disponibilizar recursos genéticos vegetais para o melhoramento, a investigação e a resiliência dos agricultores.
“As discussões em Lisboa não se centraram apenas nos desafios que temos pela frente, mas, mais importante ainda, na responsabilidade – e na oportunidade – do setor das sementes em ajudar a moldar o futuro. Um futuro resiliente dependerá de ações conjuntas, e Lisboa deu-nos um mandato claro para continuarmos esse trabalho”, partilhou o Presidente cessante da ISF, Arthur Santosh Attavar.
Fonte: ISF /ANSEME
Imagens: ISF/Marc Grimwade e Rui Elias